Artigos Publicados

Entrevista de Mário Parra da Silva publicado na publicação Família Cristã

Mário Parra da Silva, Presidente da Direção da APEE, foi entrevistado pela a revista "Família Cristã", no passado mês de abril. Fica aqui o artigo publicado no site da revista.

O caminho para a felicidade e para o sucesso no mudo empresarial não passa pelo lucro fácil e episódico, ou pelas estratégias brilhantes de sufoco dos fornecedores. Amar o próximo ou ter ética nas empresas são as soluções que a Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE) e a Associação Portuguesa de Ética Empresarial (APEE) defendem, e que são comprovadas por muitos exemplos de empresas que, seguindo esses critérios, têm sucesso e contribuem para o sucesso de outros.

«Amarás o próximo como a ti mesmo.» As palavras de Jesus percorreram toda a história da Humanidade e fazem ainda eco nos dias de hoje, entre aqueles que são crentes. Amar o próximo torna-se, assim, um imperativo dos cristãos que, enquanto empresários, são convidados a trazer essa palavra para o quotidiano da sua gestão, no entender de António Pinto Leite, presidente da ACEGE, autor do livro O Amor como critério de gestão. Mas em que se traduz esta opção? «Significa tratarmos os outros, na vida empresarial, como gostaríamos de ser tratados, se estivéssemos no lugar deles, com a informação que nós dispomos. Tratar assim os colaboradores, fornecedores, clientes, concorrentes, a comunidade que está em sofrimento, e as gerações futuras», defende António Pinto Leite, que aponta este critério – o Amor – como «poderosamente operacional e virtuoso no plano económico». «Hoje em dia é ciência exata que quanto mais humanizadas forem as organizações, mais felizes são as pessoas e quanto mais felizes são, mais produtivas são as empresas. E quanto mais produtivas são as empresas, mais competitivas são as economias dos países», defende o empresário.

Mário Parra da Silva é presidente da APEE e não concorda com a utilização do termo Amor, preferindo defender a necessidade de as empresas terem ética. «A ética não tem grande coisa a ver com o amor, que é um atributo divino, maravilhoso, centrado no outro. A ética, por seu lado, consiste em raciocínios, filosofia, pensamento sobre distinção entre bem e mal, justo e injusto, correto e incorreto. As empresas não têm alma, logo não têm pecados, nem moral, têm é ética, que é uma coisa distinta. Têm critérios que normalmente estão associadas à sua necessidade de sobreviver, e de acordo com esses critérios, decidem o que é para elas certo, errado, justo ou injusto», defende Mário Parra da Silva.

No que ambos estão de acordo é que estes princípios de ética e de amor são perfeitamente compatíveis com a procura do lucro e da sustentabilidade financeira que deve ser apanágio de qualquer empresa ou negócio. «A divisão entre amor e lucro é uma falsa divisão», diz António Pinto Leite, enquanto Mário Parra da Silva sustenta que «uma ética que defenda a justiça e o bem é completamente compatível com o negócio». «Eu até diria que o negócio é totalmente incompatível com a falta de ética. O ato pontual de fazer negócio, como um indivíduo que encontra outro na rua e lhe vende um telemóvel roubado por 5 € para ir comprar uma sandes. Isto baseia-se na oportunidade, não na confiança. O que nos interessa são os negócios que são constantes, que são resultados de projetos empresariais, que têm uma série de pessoas e instrumentos associados», afirma o presidente da APEE.

Boas relações com todos

Estes negócios são resultado de relações de confiança que se estabelecem entre os vários agentes presentes, que até podem divergir em questões pontuais, mas não podem afastar-se do essencial. «Sempre que o negócio é desenvolvido de forma ética, ele procura desenvolver boas relações com os empregados, os clientes e os fornecedores», criando «relações de mútua confiança, que partem da noção de que todos temos a ganhar com essas relações: o fornecedor vende o seu produto, o cliente recebe uma coisa que necessita, o meu empregado tem trabalho e realização profissional, etc.», afirma o responsável da APEE.

Chegados a este ponto, a questão impõe-se: Se é uma verdade científica e está provado que as empresas com ética ou amor dão certo, porque é que há quem opte por outros caminhos? «Há um padrão cultural dominante que considera contraditório o amor com a vida empresarial», diz António Pinto Leite, enquanto Mário Parra da Silva considera que, apesar do jogo de pressão «normal e desejável» entre clientes, fornecedores e empregados, há quem transforme essa relação «ecológica» numa prática «selvagem» e distorça a realidade. Mas aqui chegados, Mário Parra da Silva põe o dedo na ferida. «A lei deve procurar que não aconteçam situações de empresas que não são éticas, e cabe às autoridades evitar essas situações. Mas está no domínio da sagacidade de cada um não aceitar empregos em empresas onde sucedam situações dessas. As coisas que acontecem de errado são muitas vezes resultado de outras ações que já foram tomadas, e as pessoas não podem ficar surpreendidas quando os problemas chegam», defende o empresário.

«Porque é que empresas ficaram reféns de fornecedores que não lhes pagaram? Porque provavelmente lhes foram prometidos lucros acima do normal, e eles na ganância foram atrás. Há pessoas que ficaram em muito má situação com a sua entidade empregadora, mas essas pessoas aceitaram provavelmente durante algum tempo receber por fora. Há acionistas que foram enganados e perderam tudo, mas se calhar acharam normal que as suas administrações lhes dessem lucros superlativos e não estranharam enquanto isso aconteceu», aponta Mário Parra da Silva, para quem a solução passa pela regulação que o próprio mercado pode fazer das empresas que nele habitam.

«A norma ISO 26000 é clara neste aspeto: nas cadeias de valor, as entidades que têm maior esfera de influência, são responsáveis pelo que se passa nessa esfera, e não podem alijar essa responsabilidade. Por isso, essas grandes empresas é que vão exigir às pequenas que cumpram com o que é suposto cumprir», explica o presidente da APEE, que conta um exemplo prático sucedido na associação. «Há uns tempos, uma empresa contactou-nos aflita porque um fornecedor grande estrangeiro com quem iam fechar contrato exigia que eles tivessem um código de ética em prática, e eles queriam arranjar um à pressa. Não conseguiram e perderam o contrato. Este cliente grande fez o que devia ser feito, e regulou o mercado. Se todos fizerem isso, o mercado regula-se a si mesmo, e no bom sentido do termo, porque não há nada pior que eu preterir um bom fornecedor, que se equipou e que está preparado, para ir comprar a um palerma qualquer que é meu amigo. Estou a atraiçoar a minha organização e o mérito daquela pessoa, que teve o azar de não ser meu amigo», argumenta.

Mudança de mentalidade

António Pinto Leite também considera que a solução para a crise passa muito pelas atitudes dos intervenientes no mercado. «A ACEGE pediu um estudo ao Prof. Augusto Mateus que descobriu que, nos últimos cinco anos, só pelo facto de as empresas portuguesas pagarem tarde umas às outras, se destruíram 72 mil postos de trabalho. E eu pergunto: Quem fez mal a esta gente?»

É por isso que o empresário não se cansa de repetir a mesma questão: precisamos de todos para solucionar o problema. «É importante dizer que se toda a gente pagasse os seus impostos, estas medidas de austeridade não seriam necessárias. Há 75% dos portugueses a pagar um custo que, se fosse distribuído pelos 100%, evitaria todos estes sacrifícios», diz o presidente da ACEGE.

Para que esta mudança de mentalidade aconteça, é preciso que se fale sobre estes temas nos lugares corretos. «A minha grande preocupação neste momento é que este assunto seja estudado na universidade, e que a universidade tome como termo científico o amor como critério de gestão. E tenho uma boa notícia, porque a Faculdade de Economia da Universidade Nova vai tratar este tema como área científica. Quanto à Universidade Católica Portuguesa (UCP), tem sido uma companheira de viagem extraordinária, e com certeza que se irá empenhar quer no plano da ética quer no plano da economia», diz.

Além desta preocupação, António Pinto Leite pretende que os «testemunhos» desta forma de agir apareçam publicamente, e diz-se cheio de «motivação e esperança» nesta área. «Verifico, no percurso que tenho feito neste caminho, que já acontece imenso amor na economia, e muitas vezes o que acontece é que muitas empresas já praticam este amor, e isto é-me dito pelas pessoas das empresas que visito, algumas delas multinacionais. Aliás, o último congresso da ACEGE foi subordinado a este tema e, para além de ter sido presidido pelo primeiro-ministro, que conhecia o tema, todas as pessoas que lá foram falar espontaneamente revelaram toda a disponibilidade imediata para participarem no congresso sobre esse assunto», revela.

No final da sua entrevista, Mário Parra da Silva foi claro. «A empresa que segue uma via ética, a prazo, ganha mais que as outras, enquanto uma que siga outros caminhos, autodestrói-se. Pode ter um sucesso episódico, mas não perdura, não consegue continuar», considera.

Por isso, deixa um desafio. «Nós temos alguns erros de cultura, até nas empresas, que precisamos de alterar. Eu achava espetacular que nós, a ACEGE e outras pessoas que mexem com este assunto se unissem no sentido de ter empresas que criam atitudes éticas que passam para todas as partes interessadas. E depois demonstrá-lo, porque é fácil, basta ir ver a lista das empresas que faliram nos últimos anos e o porquê», declara.

Fonte: Família Cristã

 

 

 

Pesquisar

with passion by softag