Há iniciativas que nascem de um plano longamente desenhado. Com uma estratégia, um plano de ação predefinido, um cronograma pronto a seguir, e, idealmente, já com uma folha de Excel suficientemente colorida para convencer qualquer reunião.
Outras, nascem de uma inquietação. Começam mais discretas, numa conversa de corredor, num momento em que alguém pergunta aquilo que parecia óbvio demais para nunca ter sido perguntado.
A EBEN – European Business Ethics Network Portugal nasceu assim: de uma inquietação, de uma ausência identificada, de uma pergunta difícil e de uma decisão partilhada.
Em maio de 2025, no contexto da Conferência Anual da EBEN – European Business Ethics Network realizada em Munique, a APEE – Associação Portuguesa de Ética Empresarial integrou oficialmente a rede enquanto representante nacional.
A constatação era desconcertante: como poderia não existir, em Portugal, um espaço estruturado de ligação entre a investigação académica em ética empresarial e os dilemas concretos vividos pelas organizações?
Um país com uma tradição universitária antiga, com produção científica relevante, com empresas crescentemente expostas a exigências ESG e com uma administração pública confrontada com desafios de transparência, não tinha ainda um espaço estruturado de ligação à principal rede europeia de ética empresarial.
Identificar um vazio é relativamente fácil. Decidir preenchê-lo exige outra disposição: visão, persistência e sentido de responsabilidade.
A ética empresarial tem vivido, durante demasiado tempo, numa posição ambígua. Todos a valorizam, poucos a priorizam.
Foi exatamente esse o caminho iniciado pela APEE. A EBEN Portugal não nasceu de uma convicção ingénua de que o percurso seria simples, mas da consciência de que a ética empresarial continua, demasiadas vezes, a ser tratada como uma matéria periférica: importante no discurso, mas secundária na decisão; valorizada na reputação, mas nem sempre integrada na governação; invocada em momentos de crise, mas insuficientemente incorporada nos modelos de gestão.
A ética, em suma, tem sido frequentemente tratada como a boa educação das organizações: desejável, simpática, recomendável, mas nem sempre considerada estrutural.
O único problema é que, quando desaparece, todos reparam.
A criação da EBEN Portugal nasce precisamente contra essa ideia decorativa da ética. Nasce da convicção de que a ética empresarial não é um adereço reputacional, mas uma estrutura da confiança.
A EBEN Portugal surge, assim, como um espaço de encontro entre dois mundos que, durante demasiado tempo, coexistiram sem dialogar de forma suficiente: as universidades e as organizações. De um lado, a investigação científica, com a sua exigência metodologia e crítica. Do outro, a realidade organizacional, marcada por decisões imperfeitas, dilemas, tensões, pressões regulatórias, desafios tecnológicos e exigências crescentes.
A ética empresarial só se torna verdadeiramente relevante quando consegue habitar estes dois lugares ao mesmo tempo: o rigor da reflexão e a complexidade da prática.
Neste percurso, a APEE tem um papel natural e estruturante. Desde a sua missão fundacional, a Associação tem procurado promover um modelo de desenvolvimento sustentável orientado por princípios e valores éticos, integrando dimensões ambientais, sociais e de governação. Enquanto Organismo de Normalização Setorial, a APEE coordena ainda trabalhos normativos em domínios como ética, responsabilidade social, sustentabilidade, igualdade de género, ESG, ética e integridade no desporto, respostas sociais e cuidados continuados integrados.
A normalização, quando bem compreendida, não é burocracia, é, método. Do mesmo modo, a ética, quando bem compreendida, não é moralismo: é discernimento, responsabilidade, ponderação e capacidade de justificar decisões perante os outros.
A EBEN Portugal acrescenta a esta matriz uma dimensão académica e internacional particularmente relevante, reforçando a ponte com a investigação científica em ética empresarial.
No centro, uma pergunta comum: como podem as organizações criar valor sem perder os valores que justificam a sua existência?
É aqui que o Conselho Científico da APEE assume também um papel decisivo. Criado como órgão de apoio à Direção, tem como objetivo desenvolver estudos científicos e reflexões nas áreas de missão da APEE e das suas Comissões Técnicas, rever projetos, avaliar programas e emitir pareceres técnico-científicos. A sua composição, envolvendo pessoas ligadas à academia, reforça esta vocação de articulação entre conhecimento científico e a prática operacional.
Mais do que um órgão consultivo, o Conselho Científico representa o pensamento informado. Não basta afirmar valores; é necessário estudá-los, discutir as suas implicações, compreender os seus limites, analisar e traduzi-los em práticas organizacionais consistentes.
Paul Ricoeur formulou uma das mais belas definições de ética ao descrevê-la como a procura de “uma vida boa, com e para os outros, em instituições justas”.
A frase é particularmente adequada para pensar a ética empresarial. Porque uma organização não é apenas um mecanismo económico, é uma instituição social. Afeta vidas, distribui oportunidades, molda comportamentos, influencia, produz impacte e participa na construção (ou erosão) da confiança.
É por isso que a EBEN Portugal importa.
Importa porque cria um espaço onde a ética empresarial pode ser tratada com a seriedade que merece. Importa porque aproxima a investigação à prática sem reduzir uma à outra. Importa porque reconhece que as organizações precisam da ciência, mas que a ciência também precisa do mundo. Importa porque reforça a missão da APEE num momento em que a sustentabilidade, a responsabilidade social, a normalização, a governação e a integridade precisam de uma muito maior coerência entre o discurso e a prática.
E talvez seja por isso que esta história, iniciada quase sem expectativa, tenha acabado por revelar uma necessidade tão evidente. Portugal precisava deste espaço. As universidades precisavam deste encontro. As organizações precisavam deste confronto com o pensamento crítico. A APEE precisava desta extensão científica e internacional da sua missão. E a EBEN precisava também de Portugal, com a sua história, as suas instituições, os seus investigadores, as suas organizações e os seus dilemas.
Não sabíamos exatamente onde este caminho nos levaria. Sabemos agora que tinha mesmo de acontecer.
Ana Saraiva, Vice-Presidente, EBEN Portugal
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