Promover saúde nas organizações: um compromisso com a saúde pública e o desenvolvimento sustentável

Durante muito tempo, a saúde no trabalho foi associada sobretudo à prevenção de acidentes, doenças profissionais e cumprimento de obrigações legais. Essa dimensão continua a ser indispensável, mas já não é suficiente. Num contexto marcado pelo envelhecimento da população ativa, pelo aumento das doenças crónicas, pelos desafios crescentes da saúde mental, pela transformação digital, pelas alterações climáticas e pelas novas formas de organização do trabalho, torna-se particularmente relevante desenvolver políticas e intervenções integradas, capazes de promover ambientes laborais mais saudáveis, resilientes e preparados para responder às exigências do presente e do futuro.

Sendo o local de trabalho um dos principais contextos da vida adulta, é nele que se constroem, reforçam ou condicionam comportamentos, relações sociais, oportunidades de desenvolvimento e condições que influenciam, de forma direta e indireta, a saúde individual e coletiva. Neste sentido, a promoção da saúde nos locais de trabalho constitui hoje uma prioridade de Saúde Pública e um investimento estratégico para organizações mais sustentáveis, resilientes e centradas nas pessoas.

A necessidade de investir na promoção da saúde nos locais de trabalho é sustentada por dados relevantes de organizações internacionais como a Comissão Europeia, OCDE, OIT ou OMS. Na União Europeia, os custos associados aos problemas de saúde mental são estimados em mais de 600 mil milhões de euros por ano, incluindo custos para os sistemas de saúde, proteção social, emprego e produtividade. Cerca de 27% dos trabalhadores europeus referem sofrer de stress, ansiedade ou depressão causados ou agravados pelo trabalho. Mas a relação entre trabalho, saúde e bem-estar é mais ampla: em 2023, registaram-se na União Europeia 2,82 milhões de acidentes de trabalho não fatais; as perturbações musculoesqueléticas continuam entre os problemas de saúde relacionados com o trabalho mais frequentes; e as alterações climáticas estão também a criar novos riscos ocupacionais, incluindo a exposição ao calor extremo. Em Portugal, as doenças crónicas afetam mais de metade da população adulta e representam uma parte significativa da perda de anos de vida saudável, tornando o local de trabalho um contexto privilegiado para a prevenção e promoção da saúde.

Nas últimas décadas, a evidência científica tem vindo a demonstrar que ambientes de trabalho promotores de saúde produzem benefícios que vão muito além da prevenção da doença. Organizações que integram a saúde e o bem-estar na sua estratégia registam melhorias ao nível da saúde física e mental dos trabalhadores, da satisfação profissional, da motivação, do compromisso organizacional e da produtividade, contribuindo igualmente para a redução do absentismo, do presentismo e da rotatividade. Estes ganhos refletem-se não apenas no desempenho das organizações, mas também na coesão social, na competitividade económica e na sustentabilidade dos sistemas de saúde.

Promover saúde nas organizações exige, contudo, uma abordagem abrangente e integrada. Não se trata apenas de disponibilizar iniciativas de atividade física, alimentação saudável ou gestão do stress, embora estas possam constituir componentes relevantes. Implica criar ambientes de trabalho seguros, inclusivos e participativos, promover lideranças capazes de valorizar o bem-estar das equipas, favorecer o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal e desenvolver culturas organizacionais que reconheçam a saúde como um ativo essencial para o desenvolvimento humano e organizacional.

A Promoção da Saúde nos Locais de Trabalho, conceito adotado internacionalmente como Workplace Health Promotion, assenta no esforço combinado de empregadores, trabalhadores e sociedade para melhorar a saúde e o bem-estar das pessoas no trabalho. Deve partir de um diagnóstico, envolver trabalhadores e lideranças, definir prioridades, implementar medidas ajustadas ao contexto e avaliar resultados. E deve reconhecer que o bem-estar não é apenas uma responsabilidade individual: cada pessoa tem um papel na gestão da sua saúde, mas as organizações têm também uma responsabilidade na criação de ambientes que tornem as escolhas saudáveis possíveis, acessíveis e sustentáveis.

É neste ponto que a Saúde Pública tem muito a contribuir. A Saúde Pública coloca a ênfase nos determinantes da saúde, nos contextos onde as pessoas vivem e trabalham, nas desigualdades, nos fatores de risco e de proteção, na avaliação das intervenções e na importância de políticas e ambientes saudáveis. Ensina-nos também que a promoção da saúde é mais eficaz quando combina conhecimento científico, participação, proximidade e capacidade de transformar evidência em ação.

Na Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa (ENSP NOVA), esta visão está no centro da nossa missão. Enquanto instituição de ensino superior dedicada à Saúde Pública, a Escola reconhece que a produção e a disseminação do conhecimento devem estar intimamente ligadas à promoção de soluções concretas para os desafios que se colocam à sociedade. A promoção da saúde em contexto laboral representa uma dessas áreas prioritárias, onde a investigação, a formação e a transferência de conhecimento podem ter um papel central.

Na verdade, esta ligação entre ensino, investigação e terceira missão tem vindo a ganhar expressão em projetos e parcerias que procuram aproximar conhecimento e prática. A prescrição social, área que temos vindo a desenvolver na ENSP NOVA, é exemplo desta abordagem: reconhecer que a saúde e o bem-estar dependem também das relações, da participação, dos contextos de vida, da ligação à comunidade e dos recursos sociais disponíveis. Esta perspetiva é particularmente relevante para as organizações, que são também comunidades e podem desempenhar um papel ativo na promoção da saúde, da inclusão e da qualidade de vida.

É neste enquadramento que a ENSP NOVA se associa aos Corporate Wellness Awards, na qualidade de parceira institucional. Esta iniciativa constitui uma oportunidade para valorizar organizações que desenvolvem práticas inovadoras e sustentadas de promoção da saúde e do bem-estar, incentivando simultaneamente a disseminação de modelos de intervenção que possam inspirar outras entidades.

Mais do que distinguir boas práticas, importa potenciar os espaços de reflexão, aprendizagem e partilha entre organizações, profissionais, investigadores e decisores. As organizações precisam de instrumentos que as ajudem a passar da intenção à ação: diagnósticos rigorosos, indicadores, envolvimento das pessoas, lideranças capacitadas, políticas consistentes e intervenções avaliadas. A ENSP NOVA é um parceiro fundamental neste caminho, ajudando a transformar conhecimento científico em ação e a sustentar melhores decisões.

Ao apoiar iniciativas que promovem ambientes de trabalho mais saudáveis, a ENSP NOVA reafirma o seu compromisso com uma visão da Saúde Pública que ultrapassa os contextos tradicionais de intervenção e reconhece as organizações como espaços privilegiados para a promoção da saúde, da equidade e da qualidade de vida.

A ENSP NOVA colabora também com redes e iniciativas orientadas para a responsabilidade social, como o GRACE, reforçando uma visão da saúde que convoca todos os setores da sociedade. As empresas e organizações não substituem os sistemas de saúde, mas são parceiras fundamentais na prevenção, na literacia, na promoção de ambientes saudáveis e na redução de desigualdades.

A saúde dos trabalhadores deixou de poder ser entendida apenas como uma responsabilidade individual, das organizações ou dos sistemas de saúde isoladamente. É, cada vez mais, uma responsabilidade partilhada, que exige colaboração, inovação e compromisso coletivo. Promover saúde nas organizações é, por isso, investir nas pessoas, fortalecer instituições e contribuir para sociedades mais saudáveis, sustentáveis e resilientes. É este compromisso que motiva a ENSP NOVA a associar-se aos Corporate Wellness Awards e a continuar a contribuir, através do conhecimento, da formação e da inovação, para afirmar a saúde e o bem-estar como pilares fundamentais do futuro das organizações e da sociedade.

Sónia Dias, Diretora e Professora Catedrática da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa

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